quinta-feira, 3 de outubro de 2013

MARTA, O CRITÉRIO TÉCNICO, E A FEIRA DE FRANKFURT

* por HUMBERTO ADAMI
A Ministra da Cultura Marta Suplicy afirmou ontem que não usou critério étnico ao mandar 70 autores brasileiros, com apenas 1 negro, e um índio, para a Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha. Usou, segundo disse, um critério técnico. Eu diria que usou um critério inconstitucional e ilegal. 

Primeiro, porque não usou a ação afirmativa para negros e índios, que o Supremo Tribunal Federal, ao julgar a ADPF 186 - Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental, ajuizada pelo DEM - Partido Democrata Brasileiro, que questionava as cotas para negros e índios na Unb - Universidade de Brasilia, entendeu ser constitucional e benéfica para o estado brasileiro. Em julgamento histórico do qual pude participar como  advogado do IARA - Instituto de Advocacia Racial e Ambiental (ver aqui), foi proclamado pelo tribunal constitucional do Brasil, pela unanimidade de seus integrantes, que, no Brasil, ação afirmativa para negros e índios é uma medida salutar e constitucional. Isso significa que além das cotas da Unb, o crítério que levar em conta a inclusão de negros e índios, não será sofrerá questionamentos de ilegalidade. 

Por outro lado, o Estatuto de Igualdade Racial, Lei 12.288, também prevê que o Estado brasileiro adotará medidas para cumprir tais desideratos. 
Diz  seu  Art. 4o  : 
A participação da população negra, em condição de igualdade de oportunidade, na vida econômica, social, política e cultural do País será promovida, prioritariamente, por meio de:
I - inclusão nas políticas públicas de desenvolvimento econômico e social;
II - adoção de medidas, programas e políticas de ação afirmativa;
III - modificação das estruturas institucionais do Estado para o adequado enfrentamento e a superação das desigualdades étnicas decorrentes do preconceito e da discriminação étnica;
IV - promoção de ajustes normativos para aperfeiçoar o combate à discriminação étnica e às desigualdades étnicas em todas as suas manifestações individuais, institucionais e estruturais;
V - eliminação dos obstáculos históricos, socioculturais e institucionais que impedem a representação da diversidade étnica nas esferas pública e privada;
VI - estímulo, apoio e fortalecimento de iniciativas oriundas da sociedade civil direcionadas à promoção da igualdade de oportunidades e ao combate às desigualdades étnicas, inclusive mediante a implementação de incentivos e critérios de condicionamento e prioridade no acesso aos recursos públicos;
VII - implementação de programas de ação afirmativa destinados ao enfrentamento das desigualdades étnicas no tocante à educação, cultura, esporte e lazer, saúde, segurança, trabalho, moradia, meios de comunicação de massa, financiamentos públicos, acesso à terra, à Justiça, e outros.


Parágrafo único.  Os programas de ação afirmativa constituir-se-ão em políticas públicas destinadas a reparar as distorções e desigualdades sociais e demais práticas discriminatórias adotadas, nas esferas pública e privada, durante o processo de formação social do País.    

O relatório final de grupo de trabalho da SEPPIR - Secretaria de Politicas de Promoção da Igualdade, chefiado pela Ministra Luiza Bairros, que analisou a necessidade de regulamentar o Estatuto,  revela que mais de 80% do estatuto dispensa regulamentação, a cargo da Presidente Dilma. Por que não praticam, então?

Ora, se o estado, incluindo sua ministra da Cultura, deve, prioritariamente, promover, por meio de adoção de medidas de ação afirmativa, a participação da população negra, em condição de igualdade de oportunidade, na vida cultural do país, como se justifica a remessa de 68 autores, não negros, para a feira do livro de Frankfurt?   

A lei 12.711 prêve ação afirmativa através de cotas no ingresso de todas as universidades federais.   O critério não é técnico, constitucional e legal? Teremos de fazer um lei para a comitiva da Feira de Frankfurt e cada ato dos ministros de Dilma?

Uma rápida pesquisa na internet nos informa que em 2011, foi lançada, pela Fundação Biblioteca Nacional a coletânea Literatura e Afrodescendência no Brasil: Antologia Crítica, que reúne, em quatro volumes, textos de 100 escritores negros, do século 18 aos dias atuais (ver aqui). A Fundação Biblioteca Nacional também está sob comando da ministra Marta. Entre os autores há nomes como Machado de Assis, Cruz e Souza e Lima Barreto, e, entre os contemporâneos, Nei Lopes, Joel Rufino dos Santos e Muniz Sodré. Abdias Nascimento, Cidinha Sillva, Ana Maria Gonçalves, podem ser lembrados.  Achei ainda o nome de Conceição Evaristo, doutora em Literatura comparada, pela UFRJ, com obras publicadas no Estados Unidos, Angola, Alemanha, África do Sul e Inglaterra. A ministra Marta pode ver aqui. Anos atrás, andando em Washington, trombei, estupefato, com uma exposição em homenagem à Carolina de Jesus. A ministra Marta Suplicy pode se informar sobre quem foi, e quantos livros publicou. Ou contratar uma assessoria mais eficiente. 

A Fundação Palmares, também sob comando da ministra Marta, também esteve envolvida em suspensão de editais para produtores e artistas negros, ocorrida em liminar em ação civil pública, no Maranhão,  depois parcialmente revogada (ver aqui), mantida suspensa, ainda, a entrega do dinheiro. Ou seja, os produtores negros que fizeram várias reuniões de protesto pelo país afora, ganharam, mas não levaram, ainda. Ou talvez, nunca.      

O vexame internacional causado por uma delegação só de brancos, ou 68, com um negro e um índio, deve causar vergonha no stablishment brasileiro. É a face mais notada do racismo nacional, que se esconde nas frestas do estado, e evoca os tempos da escravidão do negro no Brasil. 

A escritora Ana Maria Gonçalves (vou colocar o link para facilitar a ministra Marta), autora de "Um defeito de cor", sempre lembra a lei no Império que obrigava negros a pedirem dispensa do "defeito de cor".  Sempre que pretendiam ocupar cargos administrativos na Coroa, militares ou eclesiásticos. A desinformação da ministra da Cultura e a desfaçatez do estado brasileiro deve sim ecoar no mundo inteiro. 

O critério técnico também é utilizado nas verbas publicitárias do Governo Federal, como mencionei recentemente (ver aqui), e serve apenas, para excluir parcela da população afrodescendente ao acesso de oportunidades e aos negócios da administração pública federal, como por exemplo ao astrônomico orçamento da propaganda do governo. A mídia étnica, de pretos e pardos, ficou de fora, por "critério técnico".

A meu ver, a utilização do critério técnico, apenas, é inconstitucional e ilegal. E dá margem a vexames internacionais, como dito. A utilização do conceito de ação afirmativa deve ser espraiado para todo staff da administração pública brasileira, através de parecer do Advogado Geral da União, o qual é vinculante e obrigatório, para que se evite que ministros da Presidente Dilma Roussef propiciem experiencias como a presente, que nos submetem ao encontro com a face mais evidente do racismo no Brasil, que tem sido motivo de denúncia do Movimento Negro brasileiro, e afronta aos Direitos Humanos.

* Humberto Adami é advogado é Mestre em Direito.
Diretor do IARA Instituto de Advocacia Racial e Ambiental
humbertoadami@gmail.com

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Marta Suplicy: ‘Não foi usado critério étnico na lista de Frankfurt’






G


Na minha opiniao, nao foi usado criterio de acordo com a Constituicao da Republica, nem com o Estatuto da Igualdade.
Ou a Advocacia Geral da Republica nao faz seu papel, ou os ministros de Dilma fazem o que da na telha.
Marta, o que ha seu Jurídico?
Humberto Adami
Advogado e Mestre em Direito.


Marta Suplicy: ‘Não foi usado critério étnico na lista de Frankfurt’

  • Ministra da Cultura elogiou o critério da lista de escritores convidados
  • Marta disse ainda que licitações estão concluídas

Marta Suplicy: ‘Não foi usado critério étnico na lista de Frankfurt’

  • Ministra da Cultura elogiou o critério da lista de escritores convidados
  • Marta disse ainda que licitações estão concluídas

MAURÍCIO MEIRELES (EMAIL)

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Atualizado:
A ministra Marta Suplicy fala em coletiva ao lado do presidente da Biblioteca Nacional Renato Lessa Foto: Agência O Globo

A ministra Marta Suplicy fala em coletiva ao lado do presidente da Biblioteca Nacional Renato Lessa Agência O Globo

RIO - A ministra da Cultura Marta Suplicy afirmou, na manhã desta quarta-feira, que não foi usado nenhum critério étnico na elaboração da lista de autores brasileiros convidados para representar o país na Feira de Frankfurt, maior feira de livros do mundo. A polêmica foi levantada, no fim da semana passada, pela imprensa alemã, que destacou o fato de só haver um escritor negro entre os escolhidos — o carioca Paulo Lins, autor de “Cidade de Deus”. A afirmação da ministra foi dada em entrevista coletiva para anunciar os números do programa de bolsas de tradução no exterior, em que estavam presentes o presidente da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), Renato Lessa, e a coordenadora do centro internacional do livro da FBN, Moema Salgado.

— O critério não foi étnico, e eu achei os critérios usados corretos. Primeiro a qualidade estética e, depois, autores que tivessem livros traduzidos em língua estrangeira — disse Marta. —Toda lista tem sempre um recorte que provoca discussão. O Brasil vive um momento de transformação, o que vai permitir que, nas próximas gerações, tenhamos um número maior de negros participando. Hoje, infelizmente, não temos.

Moema Salgado disse que o critério de escolha de autores cujos livros tenham sido publicados no exterior foi um acordo com a feira.

— Achei até estranho os próprios alemães levantarem essa questão. É uma demanda da própria feira. Quem vê um debate quer ter um livro traduzido para comprar — afirmou Moema Salgado.

Licitações polêmicas

Outro assunto comentado foram as licitações abertas com atraso — a três meses da feira — pelo consulado do Brasil em Frankfurt, para a contratação de serviços essenciais à participação do país. Era o caso do hotel onde a delegação vai se hospedar. O Hotel Lloyed, onde havia uma reserva feita pelo consulado muito tempo antes das licitações, há um ano, não ganhou. A delegação brasileira vai ficar hospedados no Holiday Inn.

Marta lembrou de, durante os preparativos para a homenagem ao Brasil em Frankfurt, houve trocas de comando no Ministério da Cultura, na Biblioteca Nacional e no consulado brasileiro, o que atrasou o planejamento.

— Viramos a página, deu tudo certo. Correu tudo bem com as licitações. No fim, conseguimos um hotel quatro estrelas, num local muito bom, dentro do nosso orçamento. Melhor até do que antevemos. A assessoria de imprensa também parece uma empresa bastante competente — disse a ministra da Cultura.

Renato Lessa afirmou que, embora tenham ocorrido só agora, o processo das licitações “já vem de muito tempo.”

Na entrevista à imprensa, o Minc divulgou ainda os números do programa de bolsas de tradução. O Brasil chega à Frankfurt com 422 bolsas concedidas a editoras estrangeiras desde 2010, e com 110 livros publicados na Alemanha. Outras 200 obras devem ser publicadas no exterior até outubro.



Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/marta-suplicy-nao-foi-usado-criterio-etnico-na-lista-de-frankfurt-10223529#ixzz2gcSuRudI 
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CIDADES DO TOCANTINS SURGEM COM A ESCRAVIDÃO E O CICLO DO OURO


A materia abaixo circulou recentemente nas redes de TV e menciona cidades dos Tocantins, escravidao e ciclo do ouro. 29 quilombos reconhecidos no Tocantins.
Gostamos muito e recomendamos.
Humberto Adami e Elzimar Domingues

02/10/2013 11h32 - Atualizado em 02/10/2013 13h00

Cidades do Tocantins surgem com a escravidão e o ciclo do ouro

Arraias e Natividade, no sudeste do estado, são alguns desses municípios.
Vestígios da época são preservados pelos moradores.

Do G1 TO, com informações da TV Anhanguera
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 A presença do negro na história doTocantins é marcante como na formação do Brasil, na época da colonização. EmNatividade, no sudeste do estado, ainda se encontram vestígios da escravidão e do trabalho dos negros. Um deles são as ruínas da Igreja de Nossa Senhora dos Rosários dos Pretos, construída com pedras, que hoje se tornaram ponto turístico da cidade.
Com a escravidão, houve a exploração do ouro, como conta a guia turística Felisberta Pereira da Silva, que luta pela preservação da memória dos seus antepassados. Ela diz que antes de trazer os negros, tentaram domesticar os índios, mas não conseguiram “acharam mais preguiçosos, na verdade eles queriam saber onde estava o ouro.” Da exploração do ouro ficou a habilidade de transformar o metal em joia, de forma manual.
Outras cidades também surgiram como ciclo do ouro, como Arraias, onde ainda se encontram remanescentes de quilombos. Toda essa história entre passado e presente pode ser vista no vídeo acima.
http://g1.globo.com/to/tocantins/noticia/2013/10/cidades-do-tocantins-surgem-com-escravidao-e-o-ciclo-do-ouro.html

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