sábado, 11 de julho de 2009

Existe lugar no topo para executivos negros?

http://humbertoadami.blogspot.com/2009/07/existe-lugar-no-topo-para-executivos.html xxxxxx http://jrrsanchez.blog.terra.com.br/2007/11/01/existe-lugar-no-topo-para-executivos-negros/

Existe lugar no topo para executivos negros?

NYTimes 01 Nov 07

Os executivos são um estudo de contrastes. Um é um frio tomador de riscos que com seu esforço saiu de fazenda de algodão do Alabama ao numero de uma das maiores corretoras de Wall Street. O outro fez sua marca como um construtor de consenso que alavancou vínculos com uma dos mais poderosas famílias da América para liderar a maior empresa de mídia do mundo. E. Stanley O’Neal, 56, da Merrill Lynch e Richard D. Parsons, 59, da Time Warner, estão associados em nossa imaginação como dois executivos que ajudaram a reescrever história por quebrar barreiras culturais e passando a conduzir empresas listadas entre as Fortune 500. Mr. O’Neal aposentado sob pressão esta semana após, uma abordagem de fusão não autorizado com um banco rival e de ter reconhecido um prejuízo $ 8,4 bilhões, que resultou em uma perda global de US $ 2,3 bilhão no trimestre. O contrato do Mr. Parsons com a Time Warner expira em Maio, e ele tem estado sob pressão para ceder as rédeas ao presidente da Time Warner, Jeffrey L. Bewkes, que segundo analistas esta disposto a acelerar mudanças incluindo a saída de negócios, tais como a AOL e a Time Warner Cable. Junto com as reflexões sobre os seus legados, suas situações levam a um debate sobre se as suas realizações teriam ajudado a nova geração de executivos negros a quebrar barreiras para enfrentar a busca de postos chave nas organizações. Indústria e observadores de direitos civis dizem que a demissão do Mr. O’Neal’s espalhou uma luz sobre a escassez de Afro-americanos nas chamadas posições de nível C nas organizações, sublinhando ao mesmo tempo em que medida executivos e conselhos de administração permanecem sendo bastiões do sexo masculino e da raça branca. O tema da raça tem provado ser delicado para executivos Afro-americanos, muitos dos quais preferem serem vistos –como se -pelo menos publicamente - "um executivo que por acaso é negro”.Eles conquistaram a posição através de seu trabalho árduo, dizem, e devem ser julgados pelos seus méritos. "Temos demonstrado que podemos gerir empresas e, em muitos casos, geri-las muito bem", afirma Marc Morial, presidente da National Urban League, uma organização sem fins lucrativos de direitos civis. "Existe uma abundância de Afro-americanos de talento no mercado. A minha esperança é que eles tenham a sua chance de crescer e assumir o comando. " O principal executivo da StarCom, Renatta McCann, disse: "As vitórias de líderes como Stanley O’Neal e Richard Parsons ambos são simbólicas e transformacional." Dito isto, acrescentou ela. "Ainda temos de chegar a um ponto em que o fluxo organicamente se regenere. Temos de conseguir dinâmica e velocidade, e conseguir escala para torná-la sustentável”. Para confirmar, diretores executivos Afro-americanos presidem várias grandes empresas, incluindo a American Express (Kenneth I. Chenault), Aetna (Ronald A. Williams), Darden Restaurantes (Clarence Otis Jr.), Sears (Aylwin B. Lewis) e Symantec (John W. Thompson). Vários Afro-americanos também ecercem posições de destaque na Fortune 500,em empresas como a General Electric (Lloyd G. Trotter), McDonald’s (Don Thompson), a Boeing Company (James A. Bell) e Xerox (Ursula Burns) . Embora alguns críticos tenham esta semana levantado questões de raça na demissão do Mr. O’Neal, analistas e aqueles com conhecimento da Merrill, dizem que não foi o caso. Mr. O’Neal foi julgado, disseram, pelas mesmas normas de outros na sua posição: o desempenho da empresa e seu relacionamento com a diretoria. Mr. O’Neal não pode ser encontrado para comentar. O porta-voz da Merrill, Jason H. Wright, afirmou: "Durante os anos Stan esteve aqui, como uma organização, abraçamos uma meritocrácia e inclusividade que se traduziu numa maior diversidade que estamos orgulhosos. O conselho tem se empenhado em tais iniciativas e não tem intenção de mudar, independentemente de quem é C.E.O.” Alfred Edmond Jr., editor chefe da revista Black Enterprise, disse: "Uma das principais lições é que sendo C.E.O. não o faz a prova de balas. " "Primeiro tivemos que aprender o que era preciso para ser o numero um," Mr. Edmond disse, "e agora estamos aprendendo o que necessário para se manter nele”. Como prova, ele apontou para Franklin D. Raines, que liderou Fannie Mae, , por seis anos antes de sair, em Dezembro de 2004 por um escândalo contábil , e Ann M. Fudge, que se demitiu em 2005 por razões pessoais, como chefe do executivo De Young e Rubicam Advertising após a agência não conseguir manter várias contas chave. "A performance corporativa é a espada que faz viver ou morrer", afirma o Sr. Edmond. "Eu sei quem eu sou quando vou para a cama, e quando acordo," Mr. Thompson do McDonald’s disse. "Eu nunca fujo de uma conversa quando alguém quer saber o que é ser um executivo Afro-americano”. Mas ele acrescentou que espera para ser julgado pelo seu desempenho. Além dessas exceções visíveeis como Mr. O’Neal e Mr. Parsons, alguns especialistas dizem que na diversidade das corporações nos últimos anos, Afro-americanos têm gradualmente perdido terreno para outras minorias. "Quando Carleton Fiorina deixou H. P., as pessoas diziam que seriam tempos delicieis mulheres em funções executivas, mas as mulheres na América corporativa parecem estar fazendo muito melhor nestes dias do que os Afro-americanos", afirmou Frank Dobbin, um professor De sociologia em Harvard que estuda a diversidade das corporações. "Quarenta anos após o Civil Rights Acts foram, estamos muito mais para trás do que deveriamos estar”. Martin Davidson, um professor da Darden Graduate School of Business na Universidade de Virginia, disse de outra forma: "Um indivíduo pode subir até o topo por muitos motivos isto não significa que uma verdadeira mudança no sistema que tenha ocorrido. Pode ser que leve vários anos antes de vermos outro Afro-americano como C.E.O. de uma grande corporação”. Na Sears, o Sr. Lewis disse, "estamos a construindo uma cultura onde cada colaborador tem uma oportunidade de excelência, se eles estiverem dispostos a colocá-la em seu trabalho. Nós julgamos as pessoas pelo que elas realizam, não por quem elas são, ou o que elas acreditam ou de onde vieram. " Segundo o Management Leadership for Tomorrow, uma ONG uma consultoria em diversidade corporativa, o numero de Afro-americanos representaram menos de 5% dos cargos de nível superior inicial, e menos de 3% dos quadros superiores sênior no ano passado. Emquanto 15% dos formados sejam Afro-americanos e hispânico, John Rice, presidente da M.L.T., disse, eles representam apenas 8% dos estudantes de M.B.A. entre as 25 principais escolas de negócios,e apenas 3% de altos cargos de gestão e de 1,6%dos diretores executivos da Fortune 1000. A ironia, Mr. Rice disse, é que as empresas tornaram-se mais agressivas nos seus esforços de diversidade. Entre os catalisadores foram os pagamentos por preconceitos raciais em ações judiciais. Em 1997, Texaco liquidou uma ação de R $ 176 milhões. Em 2000, a Coca - Cola pagou R $ 192,5 milhões para cerca de 2.000 empregados. De fato, afirma a Professora Dobbin de Harvard, alguns programas de diversidade tem se mostrado contra producente. Segundo o professor Dobbin’s 2006 revisão de dados deprogramas de diversidade apresentados pelas empresas à Equal Employment Opportunity Commission, iniciativas que visam reduzir preconceito no topo, resultou numa redução de 6% na proporção de mulheres negras em posições de gerencia. Em um esforço para aumentar as fileiras dos negros em executivos de alto nível, o Executive Leadership Council, uma organização sem fins lucrativos, em Alexandria, Va., realizou um seminário em Abril denominada “Strengthening the Pipeline.” ("Reforçar a Fonte.") Os membros do grupo cresceu e hoje tem mais de 400, de menos de 100 em 1989. O diretor da organização, Carl Brooks, disse alguns Afro-americanos optaram por um caminho diferente. "A forma como a minha geração foi educada foi que vimos apenas uma rota para o sucesso, e que era para ser contratado por uma empresa e ir trabalhar de terno e gravata e carregar uma pasta”, disse Mr. Brooks .. Os dias em que as empresas tinham o monopólio de talentos termiram,Afro-americanos estão olhando para o trabalho de forma que são muito mais ampla do que fizemos. “

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Pelos mesmos direitos do imigrante

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POLÍTICA DE COTAS Pelos mesmos direitos do imigrante

Roberto de Carvalho (*)

"...que a justiça seja como um rio, que não pára de correr."

Palocci, Mantega, Dulci, Berzoini, Rosseto e Gushiken. Estes são sobrenomes de brilhantes ministros do governo petista, descendentes de italianos e japoneses. Como chegaram ao Palácio do Planalto, símbolo do poder máximo do país, superando os Silva, Oliveira e Santos, sobrenomes mais comuns de famílias pobres no Brasil, em geral, de descendentes de africanos ou portugueses pobres? A resposta é simples: os bisavós dessas estrelas petistas foram beneficiados pelo que chamamos aqui de "cota estrangeira". Isto é, uma política imigratória produzida pelo Estado e fazendeiros entre o fim do século 19 e os anos 40 do século passado, que beneficiou principalmente mais de três milhões de portugueses, italianos, alemães e japoneses que vieram trabalhar na agricultura da Região Sul e Sudeste, atraídos pelas possibilidades de ascensão numa terra nova e promissora. Foi mais de meio século de políticas afirmativas pró-estrangeiros.

Naquela época, nenhum setor da inteligência brasileira objetou que estava sendo dado tudo aos imigrantes e nada aos afrodescendentes que, recém-libertados da escravidão, enchiam as periferias das cidades porque não receberam terras – como prometeram os abolicionistas – nem escola, educação, atendimento médico e outras necessidades básicas da cidadania. Enquanto os europeus e orientais prosperavam no cultivo das melhores terras, os afrodescendentes ocupavam apenas os setores já previamente previstos para eles: o dos trabalhadores braçais mal pagos ou dos ambulantes sem garantia trabalhista nas ruas das cidades brasileiras.

Hoje, por exemplo, causa espécie ao mundo civilizado – e principalmente à grande imprensa – a reação de setores médios intelectualizados em relação à adoção de cotas para negros nas universidades brasileiras. Estes setores – muito deles com sobrenomes estrangeiros – pouco se recordam das polpudas políticas de ação afirmativa internacional do Brasil para os imigrantes entre 1886 e 1940. Neste sentido, é importante demonstrar por que tudo isso ocorreu.

Sem possibilidade de deter o novo sistema capitalista, e prevendo que teria que empregar a antiga mão-de-obra gratuita escrava, os fazendeiros, articulados com o Estado, resolveram investir na importação de trabalhadores estrangeiros para o campo. Naquele momento, setores intelectuais produziam estudos demonstrando a inferioridade do negro em relação aos brancos. Havia o temor de que a sociedade brasileira se tornasse mais negra do que já era. Por isso, europeus eram vistos como racialmente superiores, mais qualificados e capazes de "branquear" a sociedade brasileira, como conta Thomas Skidmore em Preto no branco: raça e nacionalidade no pensamento (Paz e Terra, 1976).

Pagando passagens, construindo centros de recepção, cedendo terras e incentivos de toda ordem, o Brasil conseguiu, depois de mais de meio século de importação estrangeira, criar e fazer prosperar descendentes europeus e japoneses, que, hoje, trabalham nos setores mais dinâmicos e produtivos do país, enquanto a maioria dos afrodescendentes continua sobrevivendo com trabalhos desqualificados, que não conduzem à prosperidade.

Entre meados do século 19 até os anos 30 do século 20, o governo brasileiro lançou maciça campanha publicitária nos jornais europeus oferecendo excelentes condições a quem quisesse imigrar para o Brasil. A campanha foi feita em parte nos jornais Il Seculo e Seculo 19, de Gênova, além de Paese, La Discussione e Mattino, de Nápoles.

Logo, as autoridades comemoraram os resultados, pois, no início da campanha, entre 1884/1888, o número de imigrantes no país passou de 23.574 para 132.070, um aumento de 573%! Já em 1906, no Rio de Janeiro, havia 210.515 estrangeiros entre os 811.443 habitantes. Entre esses estrangeiros, 133.393 eram portugueses, representando 16% da população. Do fim do século 19 até 1941, o Brasil recebeu 188.986 portugueses, de acordo com pesquisadores de imigração.

Segundo Skidmore, os fazendeiros que quisessem instalar imigrantes europeus em suas terras gozariam de benefícios garantidos por lei. Em 1886, em São Paulo, fazendeiros criaram a Sociedade Promotora da Imigração, com polpudos recursos públicos e privados para recrutar italianos, pagando suas passagens e providenciando trabalho nas plantações. "O governo usava fundos públicos para financiar o recrutamento de mão-de-obra imigrante através de um consórcio de fazendeiros ricos, cujo chefe era Martinho Prado Junior", escreve Skidmore.

Elites, compartilhem

O negócio da mão-de-obra imigrante era tão promissor que empresas estrangeiras firmavam contratos com o governo brasileiro para trazer ao Brasil a mão-de-obra para o campo. Em 1º de dezembro de 1912, o governo mineiro celebrou contrato com o italiano Camilo Cresta para trazer 10 mil trabalhadores italianos para o Brasil. O governo do estado concedia lotes de terra a seus novos habitantes. O Decreto nº 777, de 1/9/1894, por exemplo, incentivava a criação de núcleos coloniais urbanos para os imigrantes em Minas Gerais. Pela lei estadual 202, de 18/9/1894, aos colonos italianos que estavam há sete anos no Brasil era concedido título definitivo das terras. A Lei nº 32, de 7/7/1896, criou mais seis núcleos coloniais para imigrantes alemães, portugueses e italianos. Em Minas, até 1896, 70% dos imigrantes são italianos. O programa de subsídios à importação de braços para a agricultura, que foi mantido até 1926 em São Paulo – quando a mão-de-obra estrangeira já era suficiente para a demanda no campo –, não permitia a entrada de asiáticos e africanos, somente com autorização do Congresso Nacional, sob condições estipuladas. Na época, imigrantes negros americanos foram impedidos de entrar no Rio de Janeiro, o que já demonstrava o caráter racial da legislação imigratória.

Sidney Chalhoub, em Trabalho, lar & botequim, mostra que o descendente de africano, que não é objeto de nenhuma ação cidadã do Estado, passa ser então objeto de repressão da ordem republicana, pois a nova ideologia do trabalho assalariado exige vigilância e repressão contínuas para estabelecer seu projeto de nação. Por isso, todo o foco das polícias sempre foi a repressão ao negro vadio e desempregado – como até hoje ocorre. Ou seja, hoje a tentativa da comunidade negra de ser tornar mais cidadã e integrada à sociedade brasileira encontra barreiras político-ideológicas, já que, como estamos "carecas" de saber, trata-se do grupo étnico mais violentado da história do Brasil.

Se o Brasil produziu uma poderosa ação afirmativa atravessando dois séculos para diversas etnias estrangeiras, por que não repeti-la com a comunidade negra, já que os próprios estudos de agências governamentais (Ipea, IBGE) vêm clamando por isso? E como ficam os opositores das cotas se, para chegar à universidade, os negros nem sequer dispõem de condições, pois suas escolas vivem atravessadas de tiros, faltam dinheiro, roupas, passagem e alimentação para sua manutenção? Só Deus sabe o que passaram os afrodescendentes que conseguiram chegar às universidades. As elites brasileiras devem deixar de receber só pra si mesmas e compartilhar com os demais cidadãos as riquezas da nação que os negros e carentes ajudaram – e continuam a ajudar – a construir.

Estereótipos da pobreza

A imprensa passa a cumprir papel retrógrado, virando propagandista do racismo cordial brasileiro, colocando-se ao lado dos privilégios históricos da parcela da população beneficiada pela invisibilidade dos negros e pela alegada ilegitimidade da reparação das desigualdades sociais, que tentam naturalizar (e perpetuar), como agora, ao tentar justificar que a pobreza não tem cor.

Sou autor de ação na OEA, em que processo o Brasil pelo crime de escravidão, e nela proponho a criação de uma força-tarefa educacional, pela qual universidades públicas país afora instalem núcleos de otimização educacional, como forma de corrigir as desigualdades acumuladas ao longo dos 350 anos em que escravos africanos ficaram sem direitos, só com obrigações. Hoje, seus descendentes merecem, no mínimo, uma compensação pelo que lhe foi negado.

Mas o racismo mostra com mais veemência a sua cara, atacado que foi numa das bases de seus privilégios. A campanha contra as cotas revela até o interesse das escolas privadas e do monopólio dos cursinhos de pré-vestibular caríssimos – possuidores de gordas fatias do mercado publicitário nos veículos de comunicação –, ao verem reduzidas as suas margens de aprovação.

No século 19 vimos o Estado brasileiro incentivar grupos étnicos europeus para embranquecer o país. Nesta empreitada, estes grupos receberam terras e subsídios do governo para se instalarem no país. Hoje estão aí, como parte do Brasil legal, sendo os distintos cidadãos. Os afrodescendentes querem os mesmos incentivos, para deixarem de ser o estereótipos da pobreza – na mídia, na história oficial, nos livros. Isto não é decente. Neste conturbado início do século 21, a sociedade brasileira precisa rever seus conceitos e corrigir os erros do passado.

Senadores e especialistas discutem formas de reparação a descendentes de escravos

COMISSÕES / CDH 08/07/2009 - 17h32
Senadores e especialistas discutem formas de reparação a descendentes de escravos

Em debate nesta quarta-feira (08) na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH), Humberto Ademi, do Instituto de Advocacia Racial e Ambiental (Iara), defendeu a reparação aos negros descendentes de escravos, tanto por meio de pagamentos, como por medidas não pecuniárias. Como exemplo de reparação não pecuniária, o presidente da CDH, senador Cristovam Buarque (PDT-DF), sugeriu a criação de um centro de pesquisa de recuperação da história negra.

Favorável à idéia, Ademi disse ser importante que esse centro de pesquisa investigue o porquê de as escolas públicas e privadas não estarem implementando as leis 10.639/03 e 11.645/08, que exigem o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena em sua grade curricular. Conforme informou, o instituto fez petição junto à Procuradoria Geral da República (PGR), cobrando a aplicação das leis pelas escolas.

- Nas escolas, se ensina que os negros vieram para cá porque se precisava de mao-de-obra para os canaviais. E a isso se resume a história do negro no Brasil. Os conselhos nacionais e estaduais de Educação poderiam trabalhar para o cumprimento das leis, como forma de reparação não pecuniária - sugeriu.

No mesmo sentido, Ademi propôs que a CDH encaminhe ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e ao Conselho Nacional de Educação (CNE), pedido de esclarecimento sobre a falta de financiamento de pesquisas sobre o assunto.

Memorial da escravidão

Mário Lúcio Teodoro, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), propôs a criação de um memorial da escravidão, como forma de reparação da desigualdade social brasileira. A proposta foi endossada pelos participantes da reunião.

- A ideia de resgatar essa dívida tem que passar por gastos efetivos com essa população - insistiu.

Para o representante do Ipea, duas medidas adotadas pelo governo brasileiro no Século 19 seriam as principais responsáveis pela atual desigualdade brasileira: a Lei de Terras, de 1850, que acentuou a concentração fundiária no país, e a própria Lei Áurea, que, ao abolir a escravatura, falhou por não assegurar trabalho aos escravos libertos.

Teodoro assinalou a impossibilidade de o Estado brasileiro arcar com o ônus financeiro de uma reparação pecuniária, destacando a existência de cerca de 80 milhões de brasileiros negros na população brasileira. Ele apresentou cálculos do Ipea segundo os quais o montante para a reparação seria equivalente a seis vezes o Produto Interno Bruto (PIB) norte-americano e superior, por exemplo, ao orçamento atual da Previdência Social.

Ele propôs que a reparação seja feita sob a forma de políticas públicas voltadas para solucionar a questão racial.

- Com tanta pujança econômica, continuamos produzindo pobres. O racismo naturaliza a desigualdade e impede nossa sociedade de pensar que essa é uma situação inadmissível - disse, ao comparar medidas adotadas pela Alemanha e Japão para tirar seus compatriotas da fome no pós-guerra.

Políticas públicas

Nessa mesma linha de pensamento, Dora Lúcia Bertúlio, procuradora-chefe da Fundação Cultural Palmares, defendeu que sejam adotadas políticas públicas específicas para negros, na forma de ações que diminuam o impacto do que chamou de "discriminação racial institucional naturalizada", que proporcionem melhores condições de vida a essas populações.A procuradora acredita que, fazendo isso, o Estado estará beneficiando o conjunto da população brasileira.

- Nenhum grupo social foi mais molestado na história de 509 anos do Brasil que a população negra - afirmou.

Dora Bertúlio manifestou-se favoravelmente à proposta de criação do memorial, porém sugeriu que seja criado, pelo menos, uma unidade em cada capital, para resgate dos processos de escravidão diferenciados em cada região do país.

Também o reitor da Unipalmares de São Paulo, José Vicente, concordou com a criação do memorial. Ele propôs que o debate sobre o tema seja ampliado e inclua representantes de organizações da sociedade civil, inclusive de âmbito internacional.
Cristina Vidigal / Agência Senado http://www.senado.gov.br/agencia/verNoticia.aspx?codNoticia=93238&codAplicativo=2 (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
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Cristovam propõe bolsa de estudo para filhos de descendentes de escravos

COMISSÕES / Direitos Humanos 08/07/2009 - 17h41
Cristovam propõe bolsa de estudo para filhos de descendentes de escravos

O presidente da Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH), senador Cristovam Buarque, propôs, em debate nesta quarta-feira (08), que a reparação aos negros descendentes de escravos brasileiros seja feita por meio de uma bolsa de estudos no valor de R$ 3 mil para os filhos das famílias de afrodescendentes.

- A gente sabe que o Estado deveria gastar 10% com educação. Essa reparação custaria 2% da receita - propôs o parlamentar.

Outra proposta apresentada por Cristovam foi a criação de centros de pesquisa de recuperação da história negra. O senador propôs ainda que o Senado realize sessão especial de reconhecimento público de que a abolição da escravatura não teria se completado.

- Seria um depoimento claro, explícito, de que não completamos a abolição. Temos um sentimento racista, que se tenta esconder, e uma desigualdade social que aflige e atinge mais aos negros - avaliou.

Memorial

Cristovam endossou, assim como os demais especialistas presentes ao debate, a proposta de Mário Teodoro, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), de criação de um memorial da abolição. Sugeriu ainda a edificação de um monumento de "memória da escravidão e de gratidão à África", semelhante ao existente no Rio de Janeiro dedicado aos pracinhas que lutaram com os aliados na Segunda Guerra Mundial.

Ao final da reunião, Cristovam propôs que seja realizada nova reunião para debater a possibilidade de reparação aos descendentes de escravos, desta vez em Salvador (BA), com a presença de representantes da sociedade civil.

Solicitou também a todos os participantes da audiência que revisem o texto referente às apresentações feitas nesta quarta-feira para que possa elaborar um livro sobre o assunto, aproveitando as suas observações.

Fundo de reparação

Também presente ao debate, o publicitário Roberto Carvalho detalhou petição apresentada à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), com o objetivo de criação do Fundo Nacional de Reparação. Conforme explicou, os recursos seriam distribuídos aos estados para a aplicação em políticas públicas de saúde, educação, saneamento básico, entre outras, capazes de promover o resgate dessas populações relegadas pelo Estado. O documento está em exame na OEA desde 2001.

- Não se limitaria [o fundo] somente à questão financeira, mas poderia atuar com políticas compensatórias - defendeu. Para Roberto Carvalho, os negros representam parcela da população empobrecida devido "a uma máquina estatal perversa", resultante de uma "sociedade também perversa", que torna normal o "crime" praticado contra a população afrodescendente.

Posição semelhante foi manifestada por Ailton dos Santos Ferreira, da Secretaria Municipal de Reparação da Bahia. Ele também alertou para a banalização das desigualdades no país e defendeu a adoção de políticas públicas reparatórias. Ferreira salientou ainda que a democracia brasileira não será plena enquanto não houver projetos de distribuição de renda e não se tratar as diferenças de condições de vida e oportunidades "definidas pela etnia e cor da pele".

- Nas cadeias públicas, é normal a presença de negros em quantidade. Temos 94% dos ambulantes de Salvador em luta desigual com o Estado e a economia formal. Subemprego é normal. Subhabitações é normal. Escolas não funcionam. Essas "normoses" precisam ser resolvidas - alertou, referindo-se à banalização dos problemas nacionais e às dificuldades enfrentadas pelos negros no país.

Cristina Vidigal / Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado) http://www.senado.gov.br/agencia/verNoticia.aspx?codNoticia=93241&codAplicativo=2

Indenização proposta aos descendentes de escravos no país equivale a 600 PIBs dos EUA

R$ 16.000.000.000.000.000 » Indenização proposta aos descendentes de escravos no país equivale a 600 PIBs dos EUA

Rodrigo Couto

Publicação: 09/07/2009 08:00 Atualização: 09/07/2009 08:15

A cifra é impressionante mesmo. E deve protagonizar uma nova polêmica com amplas discussões por todo o país. A criação da Comissão de Indenização aos Descendentes de Negros Africanos Escravizados no Brasil foi tema de uma audiência pública realizada ontem pela Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado com uma proposta que prevê o pagamento, em parcela única, de, no mínimo, R$ 200 mil aos que comprovarem o vínculo com os escravos. Caso fosse aprovada hoje e considerando que o território nacional abriga pelo menos 80 milhões de afrodescendentes, a medida custaria aos cofres públicos a impressionante cifra de R$ 16 quadrilhões, ou aproximadamente US$ 8 quadrilhões.

 Cristovam Buarque (D) durante a reunião da comissão:
Cristovam Buarque (D) durante a reunião da comissão: "A ideia de reparação financeira é extremamente polêmica"
“Esse valor seria algo em torno de 600 PIBs americanos (Produto Interno Bruto)”, prevê Mário Lisbôa, diretor de Cooperação e Desenvolvimento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Apesar de favoráveis à reparação do Estado ao grupo social, especialistas ouvidos pelo Correio foram cautelosos quanto ao pagamento pecuniário. Embora admita resistência ao tema, sobretudo no Congresso Nacional, Humberto Adami, presidente do Instituto de Advocacia Racial e Ambiental (Iara), lembra que os judeus vítimas do holocausto e os japoneses encarcerados receberam indenizações. “Por que para outras pessoas podem pagar e não para os negros?”, questionou. Defensor de políticas públicas sociais para os afrodescendentes, Mário Lisbôa pondera que a proposta é positiva, pois coloca a escravidão em debate. Mas admite que, do ponto de vista de capacidade de o Estado pagar esses valores, é inviável. “É um projeto ambicioso, tendo em vista que a população negra representa mais da metade dos brasileiros.” As indenizações pagariam os negros pelos cerca de 300 anos de escravidão. “Sem qualquer medo de errar, o tema é um dos mais importantes. A ideia de reparação financeira é extremamente polêmica”, afirma o senador Cristovam Buarque (PDT-DF). Contrário ao pagamento das indenizações, o parlamentar defende incentivos educacionais aos estudantes afrodescendentes, financiamento a projetos culturais relacionados à cultura negra, além do reconhecimento público de que a abolição não está completa. Jornalista e publicitário, João Roberto de Carvalho foi além e apresentou petição, em junho de 2001, à Comissão Interamericana de Direitos Humanos relativa à violação da Convenção sobre Direitos Humanos pelo Estado Brasileiro. “Caso vençamos na OEA, o dinheiro da reparação deverá ser depositado num fundo para ser aplicado em educação afirmativa, e será gerido por um conselho de notáveis da comunidade negra brasileira”, explica. » Ouça as entrevistas com o senador Cristovam Buarque e com o reitor José Vicente, da Unipalmares http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia182/2009/07/09/brasil,i=125000/INDENIZACAO+PROPOSTA+AOS+DESCENDENTES+DE+ESCRAVOS+NO+PAIS+EQUIVALE+A+600+PIBS+DOS+EUA.shtml

Bancos dizem que querem aumentar contratação de negros

Bancos dizem que querem aumentar contratação de negros
O Programa de Valorização da Diversidade no Setor Bancário poderá servir de exemplo para outras áreas. O diretor de Relações Institucionais da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), Mário Sérgio Vasconcellos, apresentou ontem à Comissão de Direitos Humanos e Minorias os resultados das ações da entidade para promover a igualdade de oportunidades, incluindo no mercado de trabalho mais negros, mulheres e pessoas com deficiência. Desenvolvido há três anos, o programa já mostra resultados. Uma pesquisa feita com metade dos 400 mil trabalhadores demonstra que os negros já representam 19% dos bancários. E 66,5% deles foram contratados nos últimos três anos. Vasconcellos esclarece que, para chegar a esse percentual, foram necessárias diversas ações afirmativas. "São as campanhas que os bancos fazem em suas áreas de recursos humanos no treinamento, nos programas de supervisão, nos programas de tutoria e nos convênios com entidades para recrutar esse tipo de público. É um conjunto de ações; não existe uma iniciativa isolada que consiga resolver o problema", ressaltou. O presidente da Comissão de Direitos Humanos, deputado Luiz Couto (PT-PB), acredita que essa experiência possa ser levada a outras áreas. "O avanço tem de ocorrer em outros setores da iniciativa privada e do próprio governo, das Forças Armadas. O Ministério Público do Trabalho já tem uma ação com os supermercados, onde há um grande volume de funcionários. É uma aprendizagem. A postura de diálogo para encontrar saídas é o fator mais importante", avalia. Números O índice de negros no setor bancário ainda é inferior ao do restante do mercado (31,9%), mas a Febraban garante que as ações terão continuidade. No caso dos deficientes físicos, a lei determina que os bancos reservem 5% das vagas para eles, mas segundo a Febraban apenas 3% foram preenchidas. Uma parceria com a prefeitura de São Paulo, no entanto, tenta formar profissionais para as cerca de 4 mil vagas ainda disponíveis. Já entre as mulheres, a questão salarial ainda é o problema. As bancárias ganham 78,6% do salário dos colegas homens. A situação delas, entretanto, é melhor que a das demais mulheres, que ganham em torno de 60% do salário dos homens no mercado de trabalho formal. De acordo com a Febraban, o censo entre os bancários será repetido a cada dois anos e novas ações serão propostas conforme os resultados. Notícias relacionadas: Debatedores pedem o fim da desigualdade racial em bancos Projeto reserva 20% das vagas em empresas para negros Reportagem - Geórgia Moraes/Rádio Câmara Edição - João Pitella Junior (Reprodução autorizada desde que contenha a assinatura 'Agência Câmara') Agência Câmara Tel. (61) 3216.1851/3216.1852 Fax. (61) 3216.1856 E-mail:agencia@camara.gov.

REPARACAO NO BRASIL PÓS DURBAN - Roberto de Carvalho*

REPARACAO NO BRASIL PÓS DURBAN Roberto de Carvalho* Em abril do ano passado, o Brasii completou 500 anos com fatos que deixaram a opiniao publica mundial indignada. Durante as comemoragoes desta data especial, o governo brasileiro autorizou a Policia Militar da Bahia a espancar negros e fndios que protestavam, em Porto Seguro, contra a cerimonia oficial, que iria mostrar que, apos cinco seculos, o pafs continuava harmonico, sem traumas do passado e rumo ao desenvolvimento. Enquanto os negros e fndios apanhavam da polfcia - houve cenas dramaticas nas quais os manifestantes se ajoelhavam no asfalto envolto por nuvens de gas lacrimogeneo -, no palanque da praia de Porto Seguro, onde as caravelas portuguesas desembarcaram ha 500 anos, Fernando Henrique Cardoso, presidente da Republica, assistia ao cerimonial alheio ao que se passava em torno. O fato por si mostrou como o poder oficial brasileiro vem tratando ha 500 anos os descendentes de escravos, pois, algumas cenas, em Porto Seguro, durante a repressao a manifestagao dos negros e fndios, mostraram que os negros continuam em posigoes subalternas na sociedade brasileira. LEIA MAIS http://ia301533.us.archive.org/2/items/TextoSobreReparacao/ReparaoEPetioComis.._text.pdf